domingo, 18 de julho de 2010

Preposições - Valor Semântico

1. Comparando as frases:

Mora com a família.

Combinou com você

observamos que, em ambas, a preposição com tem como antecedente uma forma verbal (mora e combinou), ligada por ela a um conseqüente, que, no primeiro caso, é um termo acessório (com a família = adjunto adverbial) e, no segundo, um termo integrante (com você objeto indireto) da oração.

2. A preposição com exprime, fundamentalmente, a idéia de “associação”, “companhia”. E esta idéia básica, sentimo-la muito mais intensa no primeiro exemplo:

Mora com a família.

do que no segundo:

Combinou com você.

Aqui o uso da partícula com após o verbo combinar, por ser construção já fixada no idioma, provoca um esvaecimento do conteúdo significativo de “associação”, “companhia”, em favor da função relacional pura, apenas nocional.

3. Costuma-se nesses casos desprezar o sentido da preposição e considerá-la um simples elo sintático, de conteúdo nocional.
Cumpre, no entanto, salientar que as relações sintáticas que se fazem por intermédio de preposição obrigatória selecionam determinadas preposições exatamente por causa do seu significado básico.
Exemplificando:
O verbo combinar elege a preposição com em virtude das afinidades que existem entre o sentido do próprio verbo e a idéia de “associação” inerente a com.
O objeto indireto, que em geral é introduzido pelas preposições a ou para, corresponde a um “movimento em direção a”, coincidente com a base significativa daquelas preposições.

Dei um presente para o aniversariante. (o exemplo é meu)

4. Completamente distinto é o caso do objeto direto preposicionado, em que o emprego de preposição não obrigatória transmite à relação um vigor novo, pois o reforço que advém do conteúdo significativo da preposição é sempre um elemento intensificador e clarificador da relação verbo-objeto:

“Oh! se a estes conheceras,
Meu Frei Gil de Santarém
(G. Dias, PCPE, 289.)

Bebi do vinho. (exemplo meu)
5. Em resumo: a maior ou menor intensidade significativa da preposição depende do tipo de relação sintática por ela estabelecida. Essa relação, como esclareceremos o seguir, pode ser fixa, necessária ou livre.

Relações fixas
Examinando as relações sintáticas estabelecidas, nas frases abaixo, pelas preposições assinaladas:
“Nós temos fibra patriótica; mas um estimulante de longe em longe não faz mal a ninguém.”
(M. de Assis, OC, III, 346.)
“Hei de sempre adorá-la, hei de querê-la. .
(A. de Guimaraens, OC, 92.)
“Por onde é que andas, ribeiro,
descoberto por acaso?”
(C. Meireles, OP, 655.)
“Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto.”
(M. de Assis, OC, li, 503.)

verificamos que o uso associou de tal forma as preposições a determinadas palavras (ou grupo de palavras), que esses elementos não mais se desvinculam: passam a constituir um todo significativo, uma verdadeira palavra composta.
Nesses casos, a primitiva função relacional e o sentido mesmo da preposição se esvaziam profundamente, preponderando tanto na organização da frase como no valor significativo um conjunto léxico resultante da fixação da relação sintático preposicional.
Em dar com (“topar”), por exemplo, a preposição, fixada à forma verbal, faz mais do que acrescentar-lhe novos matizes conotativos: altera-lhe a própria denotação.

Relações necessárias
Nas orações:
“Minha mãe acedeu prontamente à minha vontade.”
(C. C. Branco, OS, 1, 713.)
“A sua admiração por Zezinho era ilimitada.”
(G. Áranha, OC, 459.)
“Volto de sua casa.”
(J. de Alencar, OC, 1, 552.)
“A vila foi tomada de misticismo.”
(G. Amado, HMI, 143.)
as preposições relacionam ao termo principal um conseqüente sintaticamente necessário:

acedeu à minha vontade (verbo + objeto indireto)

admiração por Zezinho (substantivo + comple mento nominal)

Volto de sua casa (verbo + adjunto adverbial necessário)

foi tomada de misticismo (verbo + agente da passivo)

Em tais casos, reduz-se a função relacional das preposições com prejuízo do seu conteúdo significativo, reduzido aos traços característicos mínimos.
Daí o relevo, no plano expressivo, da relação sintática em si.

Relações livres
A comparação dos enunciados:

Encontrar com um amigo.

Encontrar um amigo.

Procurar por alguém.

Procurar alguém.

mostra-nos que a presença da preposição (possível, mas não necessária sintaticamente) acrescenta, às relações que estabelece, as idéias de “associação” (com) e de “movimento que tende a completar-se numa direção determinada” (por).

O emprego da preposição em relações livres é, normalmente, recurso de alto valor estilístico, por assumir ela então a plenitude de seu conteúdo significativo.
CUNHA, Celso Ferreira.Gramática da Língua Portuguesa. MEC. 1972, p. 512 a 518)

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